Insônia infantil

Recém-instalada na nova casa, após mudar-se para outra cidade por causa do trabalho, a analista de estratégia de marketing Flavia Ballvé-Boudou encontrou um problema: a filha Laura, então com quatro meses, não conseguia dormir uma noite inteira. Dormia, mas acordava a cada duas ou três horas, exigindo sempre a atenção da mãe. Sem a ajuda do marido, que continuava trabalhando na cidade anterior e só voltava para casa nos finais de semana, Flavia teve de segurar o rojão sozinha. “Era muito difícil e cansativo para mim, que no dia seguinte tinha de estar cedo no trabalho, gerenciando uma equipe”, conta. Este é apenas um entre milhares de desabafos de mães que enfrentam em casa o problema da insônia infantil, que atinge 35% das crianças de até cinco anos de idade e pode trazer sérias conseqüências para o seu desenvolvimento.

A insônia na criança pode se manifestar como dificuldade para adormecer quando ela é colocada na cama ou então de continuar dormindo durante a noite. Costuma ocorrer nos primeiros anos de vida e está relacionada a problemas comportamentais e a um aprendizado inadequado dos padrões de sono usuais de cada idade. Aprendizado? Sim. Da mesma forma que a criança precisa aprender a comer com a colher ou usar o banheiro, ela precisa também aprender a dormir. E quanto mais cedo se ensina o bebê a adormecer por conta própria, menores serão as chances de surgirem problemas de sono durante a infância, a adolescência ou ao longo da vida. “O bebê, em geral, tem dificuldade para iniciar o sono. Para isso, precisa ser embalado pela mãe ou receber uma mamadeira ou uma chupeta. Ele também pode apresentar despertares freqüentes e, para dormir novamente, requer todo o ritual feito no início da noite”, comenta o pediatra Gustavo Moreira, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

A criança com insônia comportamental está na maioria das vezes atuando em espelho aos sentimentos maternos, ou seja, a ansiedade em geral é da mãe

Mas de quantas horas diárias de sono uma criança precisa? Segundo o médico, varia de acordo com a idade e a pessoa. Um recém-nascido precisa de 16 horas; um lactente, de 14 horas; uma criança de 2 a 4 anos, de 13 horas; de 5 a 7 anos, de 12 horas; de 7 a 12 anos, 10 horas. “A variação de criança para criança, em cada idade, é de mais ou menos duas horas”, sublinha o Dr. Gustavo. É importante notar que a insônia só é caracterizada quando a criança acorda várias vezes na mesma noite. Despertar no meio da noite, uma vez por semana, não é motivo para preocupação. Outro ponto a se notar é se a criança tem pique para levantar de manhã ou acompanhar as tarefas do dia. A insônia, nestes casos, cobra seu preço e deixa a criança bastante abatida e sem energia.

O dilema do choro

As causas da insônia são bastante variadas. Uma delas é a ansiedade. Quando a criança passa por alguma mudança na vida – seja uma escola ou uma casa nova ou algum acontecimento que tenha grande impacto sobre ela – acaba tendo dificuldades para pegar no sono. Mas, em geral, a insônia causada por ansiedade rende apenas algumas noites maldormidas e, logo depois, a rotina da criança volta ao normal. Trata-se apenas de uma reação ao processo de adaptação a uma nova realidade. A insônia pode ocorrer, também, por insegurança. “Chorar e solicitar ajuda dos pais para dormir é um evento aprendido por reforço de um comportamento. Uma criança que acorda chorando no meio da noite pode ter inúmeros motivos – febre, dor, fome, fralda suja -, mas muitas vezes só está solicitando a presença dos pais. E aqueles pais que reconhecem bem cada um desses eventos e sabem corrigi-los notam quando o choro é de manha e respondem apropriadamente. Ou seja: não pegam no colo e não embalam, deixando a criança voltar a dormir sozinha”, aponta o Dr. Gustavo.

Flavia Ballvé resolveu agir assim para tentar diminuir o cansaço causado pelas noites maldormidas da filha. “Na maioria das noites eu ia lá ver o que estava acontecendo, depois de uns cinco minutos de choro, ela parava e voltava a dormir. Só precisava mesmo que eu a acalmasse, mas muitas vezes ela recomeçava a chorar assim que eu voltava para a cama. Nessas noites, eu fazia de tudo para que ela voltasse a dormir. Dava mamadeira, pegava no colo, o que fosse, pois estava sozinha e precisava levantar bem cedo no dia seguinte”, conta.

Crianças hiperativas ou com dificuldades de aprendizado também podem sofrer de insônia, pois não conseguem se desligar das atividades do dia. Mas nada causa mais espanto nos pais do que as crianças que levantam, andam pelo berço, riem, batem palma, falam, choram… dormindo. Esses episódios de sonambulismo são muito comuns na infância e confundem os pais, que ficam sem saber o que fazer, pois a criança não descansa. A boa notícia é que o sonambulismo infantil tende a desaparecer ainda na infância. Enquanto isso, é bom não deixar objetos perigosos ao alcance da criança e trancar bem as portas e as janelas. A maioria dos casos de insônia – incluindo também os de sonambulismo – é passageira, mas se ela persistir, e começar a interferir na capacidade da criança de realizar as tarefas do dia-a-dia, é melhor procurar orientação de um médico.

Mamãe estressada, bebê também

Você já parou para pensar que a causa da insônia do seu filho pode ser você? Calma, isso não é tão anormal quanto parece. “A criança com insônia comportamental está na maioria das vezes atuando em espelho aos sentimentos maternos, ou seja, a ansiedade em geral é da mãe. Reconhecendo e atuando nesse problema, consegue-se resolver a insônia”, diz o Dr. Gustavo. Flavia, por exemplo, só foi descobrir isso pelo pediatra. “Foi ele quem me chamou a atenção para isso. Eu ficava tão estressada quando meu marido não estava em casa que a Laura não conseguia dormir direito. Nos finais de semana, quando o pai chegava, ela dormia a noite toda. Comecei a tentar relaxar e, depois disso, ela começou a acordar menos à noite”, conta.

Fonte: Vix